{"title":"Como o chapadão virou serra","content":"O dia em que o marketing e a perspectiva de quem vive no litoral apagaram o Planalto Serrano do mapa mental brasileiro.\n\n\n\nQuando eu era crian&#xE7;a e estudava Geografia em S&#xE3;o Paulo, as coisas pareciam ter um lugar bem definido na Terra e no vocabul&#xE1;rio. A professora ensinava com uma clareza quase matem&#xE1;tica: o litoral fica na praia, a escarpa &#xE9; a subida inclinada &#x2014; a serra propriamente dita &#x2014; e, quando a subida finalmente acaba e o terreno volta a ficar reto l&#xE1; em cima, voc&#xEA; chegou ao planalto. Simples, l&#xF3;gico e visual. Lages, Bocaina do Sul e as cidades vizinhas eram, sem d&#xFA;vida alguma, o Planalto Serrano.\n\n\n\nPor isso, at&#xE9; hoje o meu c&#xE9;rebro sofre um pequeno curto-circuito quando ligo a TV, abro um portal de not&#xED;cias e vejo uma manchete dizendo: &#x201C;Grave acidente na BR-282 deixa quatro feridos na Serra Catarinense&#x201D;, referindo-se a um trecho em Bocaina do Sul.\n\n\n\nA minha mente anal&#xED;tica &#x201C;buga&#x201D; na hora. Olho para o horizonte de Bocaina e o que vejo? Coxilhas suaves, campos limpos e um horizonte infinito. Um chapad&#xE3;o. Uma mesa de terra a mais de mil metros de altitude. Onde &#xE9; que foi parar a serra?\n\n\n\nA anatomia de um engano geogr&#xE1;fico\n\n\n\nPara entender esse fen&#xF4;meno, &#xE9; preciso separar a geomorfologia pura da linguagem do cotidiano.\n\n\n\nNa f&#xED;sica dos relevos, a serra &#xE9; a dobra, a encosta, a pirambeira. &#xC9; o pared&#xE3;o de rocha da Serra do Rio do Rastro, da Serra do Corvo Branco, da Serra da Tartaruga ou dos Soldados Sebold. O planalto, por sua vez, &#xE9; justamente o topo de uma grande eleva&#xE7;&#xE3;o que se caracteriza por ser relativamente plano.\n\n\n\nEstar no topo do Planalto Serrano &#xE9; pisar numa imensa superf&#xED;cie plana &#x2014; um chapad&#xE3;o. Dizer que Bocaina do Sul fica &#x201C;na serra&#x201D; &#xE9; o equivalente geogr&#xE1;fico a olhar para uma mesa perfeitamente nivelada e insistir em cham&#xE1;-la de p&#xE9; da mesa.\n\n\n\nOs &#x201C;culpados&#x201D;: A vis&#xE3;o de baixo para cima e o apetite do marketing\n\n\n\nComo &#xE9; que uma incorre&#xE7;&#xE3;o geogr&#xE1;fica dessas se consagrou a ponto de virar verdade absoluta na imprensa? A resposta passa por dois grandes motores: a perspectiva de quem produz a not&#xED;cia e o poder do turismo.\n\n\n\nEm primeiro lugar, h&#xE1; a vis&#xE3;o do litoral. Os maiores ve&#xED;culos de comunica&#xE7;&#xE3;o de Santa Catarina historicamente se concentram na faixa litor&#xE2;nea. Para quem est&#xE1; na praia, no n&#xED;vel do mar, tudo o que exige engatar uma marcha forte e encarar curvas sinuosas para cima &#xE9; simplificado como &#x201C;a Serra&#x201D;. O destino virou o nome do obst&#xE1;culo que se precisa superar para chegar at&#xE9; ele.\n\n\n\nEm segundo lugar &#x2014; e talvez o fator decisivo &#x2014;, entrou em cena o marketing tur&#xED;stico. A partir dos anos 1990 e 2000, quando o turismo de inverno e o ecoturismo explodiram na regi&#xE3;o, os estrategistas de marca perceberam algo fundamental: vender &#x201C;Frio e vinho na Serra Catarinense&#x201D; soava po&#xE9;tico, acolhedor e charmoso. J&#xE1; &#x201C;F&#xE9;rias no Planalto Serrano&#x201D; parecia t&#xED;tulo de relat&#xF3;rio t&#xE9;cnico do IBGE ou quest&#xE3;o de prova de vestibular.\n\n\n\nA denomina&#xE7;&#xE3;o pegou de tal forma que o pr&#xF3;prio governo e os munic&#xED;pios oficializaram a &#x201C;Serra Catarinense&#x201D; como o nome da Regi&#xE3;o Tur&#xED;stica e da associa&#xE7;&#xE3;o de munic&#xED;pios (AMURES). A marca engoliu o relevo.\n\n\n\nE o que sobrou para a verdadeira Serra?\n\n\n\nA ironia dessa troca de nomes &#xE9; t&#xE3;o grande que nos for&#xE7;a a fazer uma pergunta provocativa: se o chapad&#xE3;o virou serra, o que virou a serra de verdade?\n\n\n\nNa pr&#xE1;tica, a escarpa real &#x2014; o acidente geogr&#xE1;fico r&#xFA;stico, inclinado e imponente &#x2014; foi rebaixada na linguagem popular a um mero &#x201C;ped&#xE1;gio natural&#x201D;. Ela virou apenas &#x201C;a subida&#x201D;, &#x201C;o trecho de curvas&#x201D;, &#x201C;a rampa&#x201D;.\n\n\n\nA verdadeira serra perdeu o pr&#xF3;prio nome para o plat&#xF4; que ela conecta. &#xC9; uma das vit&#xF3;rias mais acachapantes da meton&#xED;mia sobre a ci&#xEA;ncia geogr&#xE1;fica: a parte (o acesso) deu nome ao todo (o destino).\n\n\n\n&#x201C;Serra&#x201D; como estado de esp&#xED;rito\n\n\n\nNo fim das contas, a palavra &#x201C;Serra&#x201D; deixou de ser um conceito topogr&#xE1;fico e virou um estado de esp&#xED;rito. Hoje, ela n&#xE3;o descreve a forma da terra que voc&#xEA; pisa, mas um conjunto de sensa&#xE7;&#xF5;es: o frio de rachar no inverno, o fog&#xE3;o a lenha, o pinh&#xE3;o assado, a geada na relva e o casaco pesado.\n\n\n\nPara o profissional de publicidade e para o leitor com pressa, a conven&#xE7;&#xE3;o funciona perfeitamente. Mas para quem ainda guarda no peito o respeito pela Geografia da inf&#xE2;ncia e pela l&#xF3;gica da paisagem, olhar para os campos abertos de Bocaina do Sul e ouvir falar em &#x201C;Serra&#x201D; continuar&#xE1; parecendo um pequeno erro na matriz.\n\n\n\nA professora de Geografia pode at&#xE9; dar um suspiro desiludido no fundo da sala, mas quem anda pelo chapad&#xE3;o sabe exatamente onde est&#xE1; pisando: no topo do mundo catarinense.","author":"Jornalista Mauro Demarchi","date":"2026-08-18T08:34:00-03:00","url":"https://jornalaw.com.br/2026/08/18/como-o-chapadao-virou-serra/","sha256":"5556414de020aa213b73e9d6c5d717f95ecdaf4880fe090c85e6535fa9813885"}