{"title":"Não é fatalidade: estamos dirigindo com os olhos no celular e não na estrada","content":"Em um único trecho percorrido nesta semana, quatro cenas chamaram atenção: o operador de uma máquina nivelando uma rua enquanto observava o celular; uma motorista atravessando trecho em obras com o aparelho na mão; uma jovem caminhando entre galhos e desníveis sem tirar os olhos da tela; e, quilômetros adiante, um motorista de caçamba dirigindo em estrada de terra cheia de curvas conferindo mensagens no telefone. Em outra ocasião, até condutores de veículos da saúde repetiam o mesmo comportamento. Quando um acidente acontece nessas condições, dificilmente é fatalidade. É consequência.\n\n\n\nO uso do celular ao volante já aparece, em estatísticas nacionais e internacionais, como um dos principais fatores de distração no trânsito. ((https://www.cobli.co/blog/distracao-no-transito/)) O problema é que nem sempre ele é facilmente comprovado após o acidente. Muitas ocorrências acabam registradas como “perda de controle”, “falha humana” ou “desatenção”, termos amplos que nem sempre revelam a causa real. Mas a combinação é conhecida: velocidade aliada à atenção fragmentada multiplica o risco.\n\n\n\nDo ponto de vista neuropsicológico, o cérebro humano não realiza multitarefa verdadeira. Ele alterna rapidamente o foco entre uma atividade e outra. Cada vez que o motorista olha para a tela, mesmo por poucos segundos, há uma quebra de atenção. A reação a um obstáculo, a um pedestre ou a uma frenagem inesperada deixa de ser automática. Soma-se a isso o sistema de recompensa ativado por notificações — uma mensagem que chega gera sensação de urgência, ainda que, na prática, 99% delas possam esperar. ((https://revistaft.com.br/perfil-dos-crimes-de-transito-uma-analise-dos-fatores-associados-aos-acidentes-e-infracoes-com-base-em-dados-da-policia-militar/))\n\n\n\nVeículo não é lugar para conferir celular. Não há justificativa razoável para um motorista de ambulância verificar mensagens enquanto transporta um paciente, assim como não há urgência que explique um condutor de caminhão, máquina pesada ou veículo oficial dividir a atenção entre a estrada e a tela. Mensagens podem ser lidas antes da partida ou após a chegada ao destino. É simples — e salva vidas.\n\n\n\nA fiscalização, por si só, não resolve tudo. Multas podem coibir, mas também estimulam tentativas de burla quando a cultura coletiva ainda não reconheceu plenamente o risco. O que precisa mudar é a percepção social: usar o celular ao volante deve ser visto com a mesma gravidade que dirigir sob efeito de álcool. ((https://www.amau.com.br/site/transito-celular-no-volante-significa-acidente-e-multa/))\n\n\n\nSegundo o CTB, Código de Trânsito Brasileiro, dirigir sem atenção ou sem os cuidados indispensáveis à segurança, é considerado infração leve, mas dirigir utilizando o celular é proibido pelo CTB, e infração gravíssima. ((https://nittrans.niteroi.rj.gov.br/wp-content/uploads/2026/01/CTB.pdf))\n\n\n\nMedidas concretas são possíveis. Órgãos públicos e empresas que mantêm frotas deveriam estabelecer protocolos claros proibindo o uso de celular durante a condução, salvo em sistemas integrados e seguros de navegação. Tecnologias de bloqueio parcial ou de ativação automática do “modo direção” podem e devem ser debatidas. Se a autorregulação individual falha, mecanismos institucionais tornam-se necessários.\n\n\n\nA transformação digital trouxe ganhos inegáveis. Mas ela também trouxe uma disputa silenciosa pela nossa atenção. Quando essa disputa ocorre dentro de um veículo em movimento, o custo pode ser irreversível.\n\n\n\nAntes que os números cresçam e os lamentos se repitam, é preciso reconhecer o problema pelo nome. Nem todo acidente é inevitável. Muitos são previsíveis. E, justamente por isso, evitáveis.","author":"Jornalista Mauro Demarchi","date":"2026-02-12T15:46:46-03:00","url":"https://jornalaw.com.br/2026/02/12/nao-e-fatalidade-estamos-dirigindo-com-os-olhos-no-celular-e-nao-na-estrada/"}