{"title":"Como perdi a discussão para um alemão","content":"O ônibus da Reunidas, que deixou Lages com o dia amanhecendo, chegou a Alfredo Wagner envolto naquela névoa fria que costuma dar à serra um ar de continente estrangeiro. Subi em Alfredo Wagner, mochila leve, bloco de anotações no bolso do casaco, cabeça cheia de argumentos para a entrevista que deveria fazer em Rancho Queimado.\n\n\n\nÔnibus quase lotado, sentei-me ao lado de um homem de meia-idade, postura ereta demais para um brasileiro num ônibus intermunicipal, olhar atento, silencioso. Tinha traços germânicos evidentes. Arrisquei mentalmente: alemão.\n\n\n\nPoucos minutos depois da partida, puxei conversa. Coisa simples. Clima, estrada, a serra.\n\n\n\n— O senhor é de fora? — perguntei.— Sou alemão — respondeu, com sotaque quase didático.\n\n\n\nVi ali a deixa perfeita.\n\n\n\n— Então o senhor está cruzando uma região de forte herança germânica — afirmei, com convicção. — Alfredo Wagner, por exemplo, é um município marcado pela imigração alemã.\n\n\n\nEle virou o rosto lentamente, como quem mede a paisagem antes de discordar.\n\n\n\n— Herança germânica? Não é isso o que diz a história, não.\n\n\n\nSorri amarelo, me apresentei:\n\n\n\n— Mauro Demarchi, muito prazer!\n\n\n\n— Dorst, Hermann Dorst.\n\n\n\n— Os sobrenomes — continuei tentando defender minha tese — a arquitetura antiga, a agricultura familiar, a disciplina do trabalho… tudo isso vem da colonização alemã.\n\n\n\nEle balançou a cabeça, negativo, ajeitou-se no banco, como quem aceita começar uma conversa que já considera decidida.\n\n\n\n— Eu caminhei por Alfredo Wagner ontem à tarde — disse. — Sem pressa. Entrei em todas as ruas centrais.\n\n\n\n— E?\n\n\n\n— Procurei uma livraria. Não encontrei. Uma biblioteca pública. Também não. Em compensação, contei bares demais para uma cidade pequena. Farmácias em sequência. Isso diz muito.\n\n\n\nFiquei em silêncio por um instante.\n\n\n\n— Cultura alemã começa pelo livro, Mauro. — continuou. — Não como ornamento, mas como hábito. Onde não há leitura, não há método. Onde não há método, não há Alemanha.\n\n\n\nTentei outro flanco.\n\n\n\n— E a arquitetura? Ainda existem casas antigas…\n\n\n\nHermann negou com a cabeça.\n\n\n\n— Casas velhas não são arquitetura germânica. Procurei enxaimel verdadeiro, proporção, funcionalidade, respeito à forma. Nada. O que vi foram adaptações, reformas sucessivas, fachadas que escondem o que já foi outra coisa. A Alemanha ali, nem lembrança decorativa.\n\n\n\n— Sobrenome não é cultura. Arquitetura isolada é cenário. Agricultura familiar existe em meia Europa e no Japão. Quanto à disciplina… — fez uma pausa curta — isso é mais mito local do que comportamento observável.\n\n\n\nInsisti:\n\n\n\n— Mas há uma identidade germânica reconhecida, ao menos no discurso regional.\n\n\n\n— Discurso, sim — respondeu. — Psicologia coletiva, não.\n\n\n\nAquilo me desarmou um pouco.\n\n\n\n— Confesso que sou obrigado a concordar! Disse. Quando me mudei para cá disse para meus familiares e amigos que me mudaria para uma das cidades mais alemãs de Santa Catarina.  O que faltaria, então? — perguntei.\n\n\n\n— Método — disse, sem hesitar. — O alemão não apenas trabalha; ele organiza o trabalho. Planeja, padroniza, transmite. Aqui, o que vejo é esforço individual, não sistema. Boa vontade, não método.\n\n\n\nO ônibus descia a serra em curvas longas. Do lado de fora, o verde se adensava.\n\n\n\n— Mas a música… — arrisquei. — As festas.\n\n\n\nEle sorriu, agora com certo cansaço.\n\n\n\n— Nos dias que fiquei em sua cidade, ouvi vaneirão, sertanejo, xote e até rock. Muito bem tocadas, aliás, bandas ótimas. Mas nenhuma bandinha genuinamente alemã com tradição. Nenhuma melodia germânica ecoando pelas ruas. O som que domina é outro, a alma que dança é outra.\n\n\n\nSuspirei, quando se discute com alemão tem que aguentar a argumentação pesada, mesmo assim ainda tentei:\n\n\n\n— A culinária, ao menos… — disse, já quase como quem se dá por vencido.\n\n\n\n— A cuca sobreviveu — concedeu ele. — Mas perdeu o pudor. Virou tudo. Banana, chocolate, doce de leite, goiabada, pizza, invenções infinitas. Não é mais tradição; é adaptação total. Quando tudo cabe, nada permanece.\n\n\n\nEle fez uma pausa curta e concluiu:\n\n\n\n— As raízes do alemão de Alfredo Wagner há muito não bebem da seiva da pátria. Estão enxertadas em outro solo. E não há nada de errado nisso. O erro é chamar isso de Alemanha.\n\n\n\nNão respondi. Pela primeira vez, não encontrei argumento.\n\n\n\n— O senhor está sendo duro — disse.\n\n\n\n— Estou sendo alemão — respondeu.\n\n\n\nSeguimos alguns quilômetros em silêncio. Depois tentei outro caminho:\n\n\n\n— Ainda assim, algo ficou. Uma memória, talvez.\n\n\n\n— Ficou o nome — disse ele. — E nomes são importantes. Mas também enganam. Chamam de alemão aquilo que já virou outra coisa.\n\n\n\nO ônibus começou a reduzir a velocidade. Rancho Queimado se aproximava.\n\n\n\nLevantei-me.\n\n\n\n— Vou descer aqui. Entrevista para o jornal.\n\n\n\nEle assentiu.\n\n\n\n— Boa sorte. Só cuidado para não confundir origem com essência — sorriu, apertando minha mão, como quem vence uma batalha facilmente.\n\n\n\nDesci assim que o ônibus estacionou na pracinha de Rancho Queimado e depois seguiu. Fiquei olhando até desaparecer na curva, engolido pela neblina baixa que começava a subir da serra.\n\n\n\nMais tarde, enquanto organizava minhas anotações, lembrei-me do que dissera meu companheiro de viagem, Hermann Dorst: “e não há nada de errado nisso”.\n\n\n\nMuitas vezes, a imigração é o único meio de sobrevivência e, mais do que impor um modo de ser, adaptar-se é talvez a forma mais sincera de expressar o amor pelo lugar onde se foi transplantado. Não se perdem as raízes, não se rompe com o passado; somam-se qualidades, incorporam-se novos gestos, até que a vida encontre equilíbrio — e felicidade — em outra terra.","author":"Jornalista Mauro Demarchi","date":"2026-01-23T08:41:03-03:00","url":"https://jornalaw.com.br/2026/01/23/como-perdi-a-discussao-para-um-alemao/"}